terça-feira, 19 de julho de 2011

"Beijo gay só lá em casa", diz autor da próxima novela das 9

Aguinaldo Silva é o único autor a ter escrito somente novelas das nove. Ele criou sucessos como “Tieta”, “Fera Ferida” e “Roque Santeiro” (esta última, em coautoria com Dias Gomes) e estreia seu novo trabalho, “Fina Estampa”, dia 15 de agosto, na Rede Globo. Antes de ficar afogado em sinopses e roteiros, Aguinaldo participou de um bate-papo no projeto “Cenas de um autor”, nesta segunda-feira (18), no Rio de Janeiro, e falou sobre sua carreira sem censura.

Aguinaldo foi entrevistado por Christiano Cochrane no projeto "Cenas de um autor" (18/7/2011)

O único assunto vetado foi sua próxima novela, mas ele tem motivos: “Não posso falar nada, porque as únicas coisas que eu falei acabaram aparecendo em outras novelas. Só digo que é tradicional, realista e bem popular. Está mais para ‘Senhora do Destino’ do que ‘Duas Caras’”. O autor ainda aproveitou para descartar qualquer possibilidade de cenas quentes entre pessoas do mesmo sexo - mas vai apresentar um misterioso personagem homossexual. “Beijo gay só lá em casa. Não é uma questão da emissora. Fiz uma enquete e 75% das pessoas disseram não querer ver beijo gay na televisão. Então acho que esse assunto deve ficar em banho-maria por uns 25 anos”. Leia a seguir o bate-papo acompanhado pelo UOL:

Que dificuldade você encontra na hora de criar um texto realista?
Aguinaldo Silva – Três coisas estão dificultando muito o processo de criação de uma boa história. A primeira é a invenção do porteiro eletrônico. Não dá mais para a mocinha abrir a porta surpresa e falar: “Você!”. A segunda coisa é o celular. Em “Fina Estampa” finalmente consegui colocar um celular dramaturgicamente. E a terceira coisa é essa história de politicamente correto. O público está cada vez mais hipócrita.

Você acredita que falta originalidade nas tramas atuais?
Aguinaldo Silva – Hoje é muito difícil ser original, porque tem muita novela, muita série
, programas na internet. Tudo é oferecido ao mesmo tempo e tudo já foi feito. Era muito mais fácil há 20 anos. Hoje ainda tem a censura do politicamente correto. Você não pode colocar uma enfermeira na novela, que o sindicato vem atrás para processar.

E qual é a influência do público na sua obra?
Aguinaldo Silva – Sou como um vampiro, sugo as ideias do público. Porque a novela não é feita para mim; é para os espectadores. Nada é imutável. Dependo muito da opinião deles para seguir com minha trama.

Novela ainda tem tempo útil de vida?
Aguinaldo Silva – Novela é o único produto lucrativo da emissora. Minissérie dá muito prejuízo, porque é muito dinheiro gasto de produção para ficar pouco tempo no ar e em um horário nada nobre.

Isso vale também para os seriados?
Aguinaldo Silva – Americanos atingiram a perfeição nos seriados. A gente precisa aprender a fazer esse tipo de produção, porque é isso o que todo mundo quer ver. Ainda estamos na fase de “Friends” e “Will and Grace”. Para americanos, isso já é passado há muito tempo. Seriado é coisa séria. Não é uma brincadeira entre amigos e diretores.

Por falar em 'brincadeira entre amigos e diretores', como funciona a escolha do elenco das suas novelas?
Aguinaldo Silva – Quando não quero um ator, eu falo “Ah, mas não sei escrever para fulano” e as pessoas entendem. Eu tenho meus preferidos, mas é preciso negociar com o diretor, porque é ele quem vai conviver por muitos meses.

Você é veterano em produções, pensa na aposentadoria?
Aguinaldo Silva – Quando fiz “Senhora do Destino”, decidi que aquela seria a décima na contagem em direção à minha aposentadoria. Com a estreia de “Fina Estampa” vão faltar sete. Essas eu tenho que assinar sozinho, sem coautoria.

Das novelas que fez, qual a sua preferida?
Aguinaldo Silva –  “Indomada” me deu 110% de retorno. É o trabalho que guardo as melhores recordações.

Como é sua rotina de trabalho?
Aguinaldo Silva – Escrevo todos os dias, mesmo estando de férias. É como tocar piano, você precisa estudar diariamente. Quando você faz novela, aprende que esse negócio de inspiração não existe. Se for esperar a ideia nascer, você está perdido. São 35 páginas, seis vezes por semana. É um trabalho e precisa de treinamento.

Você também escreve um blog, que costuma render polêmicas na internet...
Aguinaldo Silva – Meu blog é o meu espaço. Não abro mão de ter minha opinião. Sou polêmico, porque me recuso a ser hipócrita. Mas é preciso ter cuidado com o que se fala na internet, porque não tem volta. É definitivo.

Existe assunto proibido para novelas?
Aguinaldo Silva – Assuntos muito profundos, como a pedofilia, são intratáveis em uma novela. Porque não existe tempo nem espaço suficiente para aprofundar.

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