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"A Vida da Gente" não inovou mas trouxe novidade para a Teledramaturgia

Nilson Xavier

O drama da gente
A Vida da Gente – trama das seis que terminou nesta sexta, 02/03/2012 – não inovou a Teledramaturgia brasileira, mas trouxe alguma novidade para este universo. Nunca antes uma novela priorizou tramas psicológicas e diálogos em detrimento à ação. Isso lhe valeu o apelido de “novela DR” (discussão de relação). A maioria dos capítulos trouxe diálogos de pares em que se discutia o sentimento ou comportamento de algum personagem. Foi quando a autora fez uso do “personagem orelha”, aquele que pode até aconselhar e discutir, mas acima de tudo, ouve, fazendo o papel do público. É como se o personagem estivesse refletindo sobre seus atos diretamente com o telespectador. Isto trouxe um problema: a novela ficou cansativa em determinados momentos – principalmente quando não havia nenhuma ação para acontecer -, o que causou a sensação de “barriga” (momento na trama em que nada acontece).

A trama – elogiadíssima pela sensibilidade com que sua história foi apresentada – ao mesmo tempo em que emocionou a muitos, também provocou o efeito contrário em outros, que concordaram com a alcunha de “angustiante”, dada pelo Ministério da Justiça ao reclassificá-la para “não recomendada para menores de 10 anos”. Em vários momentos, diante de tantos dramas, a novela passou mesmo aquela sensação de tristeza exagerada. Faltou um maior “alívio cômico”, aquele momento em que o telespectador respira entre um drama e outro. Personagens como Seu Wilson (Luiz Serra), Nanda (Maria Eduarda), Cris (Regiane Alves) e Jonas (Paulo Betti) foram responsáveis por situações risíveis, mas que não foram suficientes diante de tanto sofrimento nos demais núcleos.

O sucesso entre os defensores de A Vida da Gente – e o grande diferencial da novela – está no mérito dela se embasar no naturalismo em detrimento ao maniqueísmo vigente. Somados a isso, um texto bonito e emocionante, com personagens com que o público pudesse facilmente se identificar.

Novela Marisa: de mulher para mulher
Uma característica de A Vida da Gente foi a abordagem feminina em suas tramas. Os dramas eram universais, mas foram trabalhados sob a ótica feminina, evidenciados principalmente diante de personagens masculinos fracos (quando comparados com as personagens femininas). Apesar de a autora ter tratado da impotência masculina na terceira idade, este subtema serviu para movimentar o romance de Laudelino e Iná (Stênio Garcia e Nicette Bruno) onde ele era, de certa forma, dominado por ela.

Outros exemplos: Marcos (Ângelo Antônio), um homem que se sempre viveu à sombra das mulheres, Jonas, um déspota bonachão e risível, e Rodrigo (Rafael Cardoso), um fraco indeciso. Quando Lúcio (Thiago Lacerda) parecia ser um homem com um pouco mais de atitude, veio uma antiga namorada e lhe deixou a ver navios. Seu Wilson brincou de macho alfa namorando duas mulheres ao mesmo tempo, mas, descoberto, optou por uma que não hesitou em trocá-lo pela carreira. Além de parecerem submissos às mulheres, os homens tinham atitudes idiotas, o que justificava que eles ficassem sempre à mercê delas.
A Vida da Gente foi a novela das “mulheres alfa”. E mulheres dialogando de mulher para mulher.

Audiência e qualidade
Que audiência e qualidade nem sempre andam juntos, todos sabem. Uma produção como A Vida da Gente é mais uma prova disso. A novela pegou o temido período de horário de verão, em que, acredita-se, as pessoas preferem ficar até mais tarde na rua do que ligar a TV entre as 18 e 20 horas. Isto repercutiu na novela: a média geral de A Vida da Gente fechou nos 22 pontos no Ibope, menos que as últimas cinco tramas do horário – Araguaia (que também pegou o horário de verão) ficou nos 23, e Cordel Encantado, 26.

Mas vamos falar de coisa boa?
Fotografia, cenários, locações, tomadas, caracterizações, figurinos, direção de arte, trilha sonora… Não tem o que reclamar: tudo muito bonito, condizente com a proposta da novela.
Direção de atores segura num elenco irrepreensível. A disputa que se viu nas redes sociais entre os que defendiam Ana e os que torciam por Manu, movimentou o interesse pela novela mais que seu próprio ibope. E isso só ocorreu graças ao texto de Licia Manzo e ao talento das protagonistas Fernanda Vasconcellos e Marjorie Estiano. Leia AQUI os elogios às atrizes.

Ana Beatriz Nogueira e Gisele Fróes deram um show de interpretação vivendo vilãs humanas, possíveis, cada uma dentro de sua loucura. Rafael Cardoso e Thiago Lacerda, em interpretações contidas, estiveram dentro da proposta de seus personagens. Nicette Bruno – como Iná – “divou” como há muito tempo não víamos na TV. Maria Eduarda – a Nanda – foi a grande revelação da novela, fazendo rir e emocionando o público – mérito também do texto afiado que a autora punha na boca da personagem. Laudelino e Wilson deram graça e leveza à trama, como os velhinhos rabugentos muitas vezes, mas adoráveis. Ângelo Antônio viveu o personagem mais chato da novela e, se conseguiu esse título, foi graças à sua atuação. Também se destacaram Leonardo Medeiros, Malu Galli, Leona Cavalli, Luiz Carlos Vasconcellos, Stephany Brito, Regiane Alves, Paulo Betti – não desmerecendo nenhum outro ator do elenco. Destaque também para a menina Jesuela Moro, que encantou como Júlia, filha das protagonistas.

Acredito mesmo que Lícia Manzo tem todas as condições de escrever uma novela para o horário nobre. Só acho que as cargas dramática e cômica precisam ser mais bem dosadas. E nem todo furo de enredo o justifica: Jonas nunca quis saber da neta? Nem nunca os pais da menina falaram do avô para ela? E no período em que a novela marasmou, Eva, Cris e Jonas poderiam ter rendido mais embates, assim como Alice e Vitória, ou mesmo um reencontro entre Vitória e Renato.

A Vida da Gente, de 26 de setembro de 2011 a 3 de março de 2012, 137 capítulos.
Novela de Lícia Manzo escrita com Álvaro Ramos, Carlos Gregório, Giovana Moraes, Marta Góes, Tati Bernardi, Dora Castellar e Daniel Adjafre.
Direção de Jayme Monjardim, Fabrício Mamberti, Teresa Lampreia, Luciano Sabino, Adriano Melo e Leonardo Nogueira.

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