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"A Grande Família" está se tornando os nossos "Simpsons"

Tony Goes.

uando um programa fica muito tempo no ar, os roteiristas têm que se virar para não deixar a peteca cair. Na década de 80, série "Dallas" teve uma reviravolta que entrou para a história: no começo de sua nona temporada, uma personagem acorda um belo dia e dá de cara com o marido, que morrera na temporada anterior --que na verdade não havia passado de um looongo sonho.

Mais recentemente, "Desperate Housewives" (Sony) lançou mão de um recurso mais prosaico. Depois de quatro temporadas, a ação deu um salto de cinco anos. Casais se separaram, algumas crianças cresceram, outras nasceram, e o seriado ganhou uma sobrevida (termina mês que vem, depois de oito looongos anos).
"A Grande Família" (Globo) acaba de usar o mesmo truque na estreia de sua 12ª temporada. Nas primeiras cenas, Lineu e Nenê parecem estar seguindo à risca o figurino da nova classe média: vão fazer sua primeira viagem ao exterior, para Buenos Aires. Mas logo os planos se frustram, porque Lineu é atropelado ao salvar o neto Florianinho e fica quatro anos em coma.

O episódio "Enquanto Lineu Dormia" focou num ângulo até previsível: o envolvimento de Nenê com outro homem, já que o marido está mais para lá do que para cá. O felizardo é ninguém menos que o médico do acidentado, e a pobre matriarca se vê numa encruzilhada: assume que na prática já é viúva, ou continua a esperar por um milagre?

Claro que o tal do milagre acontece, e justamente quando Nenê está a ponto de ceder aos avanços do pretendente. Lineu desperta como se tivesse ido para a cama na noite anterior, e tem uma síncope que o conduz de volta ao hospital quando se dá conta da quase-infidelidade de sua esposa.

Os créditos de encerramento subiram antes que este conflito estivesse resolvido, mas alguém duvida que Nenê e Lineu logo voltarão às boas? A separação de um dos casais mais emblemáticos da TV brasileira seria uma mudança drástica demais.

Na verdade, pouca coisa se alterou ao redor do par central. Florianinho agora é um adolescente, mas seus pais continuam basicamente os mesmos (apesar das lentes de contato azuis de Bebel).
Tuco, sim, está em outro: virou ator de sucesso num programa humorístico, onde faz um gay caricato e enrustido. Uma leve gozação que a "Grande Família", que sempre apelou mais para o sorriso do que para a gargalhada, fez ao estilo popularesco do "Zorra Total".
No fundo, tudo continua a mesma coisa. E é até bom que seja assim. Vide o sucesso de "Os Simpsons", no ar há mais de vinte anos e também com um casal que passa por inúmeras crises, mas não se larga de jeito nenhum.
É verdade que o tempo não passa neste desenho, de longe o mais longevo da TV americana. Apesar de Springfield já estar na era da internet, Bart, Lisa e Maggie continuam com a mesma idade que tinham em 1990.
O tempo passa, sim, para "A Grande Família", mas o envelhecimento não mudou a dinâmica entre os personagens. Neste ponto, eles estão cada vez se parecendo mais com uma versão brasileira dos "Simpsons". As coincidências acontecem até na abertura do programa, que termina com a família sentada num sofá, em frente à televisão. Coincidências?

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